
Viva :) Apresento hoje um extenso texto, não escrito por min, apenas adaptado e que já á muito tempo planeava colocar, a formatação ainda está em bruto mas dá para lêr...considerei o texto interessante, até pelo papel que as emoções tem no desenvolvimento da personalidade, interacção com os outros, compreensão e cognição do próprio mundo do individuo.
Já tinha lido uns 3 livros sobre o tema, um dos quais do autor que menciono e resolvi incluir o tema por achá-lo interessante, e destronar o Q.I como factor preponderante.
INTELIGÊNCIA EMOCIONAL Goleman, LeDoux e Damásio inauguraram um novo domínio - as emoções. Antes deles, o tema tinha sido aflorado mais numa perspectiva poética ou filosófica -Aristoteles aconselhava moderação nas emoções; Pascal defendia que «o coração tem razões que a razão desconhece»; Nietzsche «a função da razão é permitir a expressão de certas paixões a expensas de outras» e Solomon que «as emoções são a força viva da alma, a fonte da maioria dos valores, a base da maioria das paixões». O que é a emoção? Os sentimentos e os raciocínios daí derivados, tais como os seguintes tipos principais de famílias:
(i) Ira - fúria, ressentimento, cólera, violência;
(ii) Tristeza - dor, pena, desalento, solidão, depressão;
(iii) Medo - ansiedade, nervosismo, consternação, horror, fobia; (iv) Prazer - felicidade, alegria, divertimento, bom-humor;
(v) Amor - amizade, aceitação, confiança, bondade, fascínio;
(vi) Surpresa - choque, espanto, admiração;
(vii) Aversão - desprezo, troça, nojo, desagrado; (viii) Vergonha - culpa, embaraço, humilhação, remorso.
Mas esta lista não resolve o problema de classificação da emoção, porque algumas aparecem combinadas, como o ciúme que é uma combinação de tristeza e medo ou de virtudes como a esperança e a fé, a coragem e o perdão. Por vezes, fala-se de um punhado de emoções nucleares: medo, ira, tristeza e prazer; a que outros acrescentam: amor e vergonha. Os grandes mestres espirituais, como Buda e Jesus, tocavam os corações dos seus discípulos falando-lhes a linguagem da emoção, ensinando por parábolas, fábulas e histórias.
Na realidade, o simbolismo e o ritual religioso fazem pouco sentido do ponto de vista racional; expressam-se no vernáculo do coração. A lógica do coração é a lógica da religião e da poesia, das psicoses e das crianças, do sonho e do mito ou como diz Campbell «Os sonhos são mitos privados; os mitos são sonhos compartilhados».
São muitas as maneiras que a mente emocional se revela infantil, e tanto mais assim quanto mais fortes forem as emoções. Uma dessas maneiras é o pensamento categórico, em que tudo é preto ou branco, sem tonalidades de cinzento. Cada emoção tem a sua assinatura biológica característica, um padrão de alterações que invadem o corpo sempre que essa emoção surge.
Racional e Não-Racional - Origem do Problema O hiato entre o mundo da racionalidade e o da não racionalidade foi, ao longo do tempo, sublinhado por diversos autores. Para eles, as emoções eram puras expressões do sentir, sem qualquer validade objectiva porque não se podiam medir nem classificar (eram a 'areia movediça' das ciências sociais). Ou seja, um terreno demasiado pantanoso para que pudesse inspirar credibilidade nos meios científicos. Porquê esta exploração agora? Porque na última década foram dados grandes passos na pesquisa das emoções a diversos níveis: tecnologias de visualização do cérebro; dados neurobiológicos; investigação das razões de sucesso na vida; resposta insuficiente do QI; destruição progressiva do tecido social; compreensão das interacções entre as estruturas do cérebro em momentos de raiva ou de medo, de paixão ou de alegria; tendência para cada geração ser emocionalmente mais perturbada que a anterior, mais solitária e deprimida, mais violenta e indisciplinada, mais nervosa e preocupada, mais impulsiva e agressiva.
Damásio (1994) veio demonstrar a impossibilidade de se separar a racionalidade das emoções: «os distúrbios psicológicos, medianos ou intensos, poderem causar doenças no próprio corpo está finalmente a ser aceite, mas as circunstâncias e o grau em que podem fazê-lo permanecem por estudar. Claro que as nossas avós sabiam tudo isso; elas podiamnos dizer como a dor, a preocupação excessiva, a ira, e tudo o mais eram passíveis de causar dano ao coração, provocar úlceras, destruir o corpo, e como nos deixavam mais vulneráveis às infecções.» “Qualquer um pode zangar-se - isso é fácil. Mas zangar-se com a pessoa certa, na medida certa, no momento certo, pela razão certa e de maneira certa - isso não é fácil” Aristóteles
Para que servem as emoções? Uma visão da natureza humana que ignore o poder das emoções é tristemente míope. As emoções são impulsos para agir e enfrentar a vida. A raiz da palavra 'emoção' vem do termo latino «motere» que significa mover, mais o prefixo «e-» fica «mover para» - As investigações indicam que cada emoção prepara o corpo para um tipo de resposta muito diferente: com a ira, o sangue flui para as mãos, tornando mais fácil pegar numa arma ou bater num inimigo, a adrenalina gera uma onda de energia; com o medo, o sangue corre para os grandes músculos, empalidecendo a face; o bem-estar activa zonas do cérebro que impedem os sentimentos negativos; o amor provoca uma excitação parassimpática que gera um estado geral de calma e contentamento, facilitando a cooperação; a surpresa permite o alargamento do campo visual, em virtude do arquear das sobrancelhas e a entrada de mais luz na retina; a repulsa gera uma resposta facial; a tristeza ajuda a adaptarmo-nos a uma perda significativa, como a morte de alguém querido ou um grande desapontamento, causa uma grande quebra de energia e do entusiasmo pela vida, aproxima a depressão e baixa o metabolismo do corpo.
Como é que o Cérebro se Desenvolveu? As tendências biológicas para agir são moldadas pela experiência de vida e pela cultura. A parte mais primitiva do cérebro, o tronco cerebral, regula as funções básicas da vida, como o respirar, o metabolismo dos órgãos, as reacções e movimentos estereotipados. Não se pode dizer que este cérebro primitivo pense e aprenda; funciona mais como um conjunto de reguladores pré-programados que garantem a sobrevivência animal. Da raiz primitiva do tronco cerebral emergiram os centros emocionais e a partir destes o cérebro pensante. A mais antiga raiz da vida emocional reside no sentido do olfacto, no lóbulo olfactivo. Todo o ser vivo, nutritivo, venenoso, parceiro sexual, predador ou presa possui uma assinatura olfactiva que pode ser transportada pelo vento, tornando-o um importante sentido em termos de sobrevivência. Com a chegada dos mamíferos apareceram novas camadaschave do cérebro emocional: o sistema límbico. Quando estamos dominados pelo desejo ou pela fúria, completamente apaixonados ou encolhidos de medo é o sistema límbico que nos governa. Há cerca de 100 milhões de anos o SN dos mamíferos deu um grande salto, por cima das duas camadas do córtex (as regiões que planeiam, compreendem o que é sentido, coordenam o movimento) foram acrescentadas novas camadas de células cerebrais, o neocórtex, a sede do pensamento, ter sentimentos a respeito de arte, ideias, símbolos. Os triunfos da arte, da civilização e da cultura são frutos do neocórtex - a sede da emoção. Um centro do sistema límbico parece sobrepor-se e assumir o controlo do cérebro - amígdala (da palavra grega para amêndoa) - para desencadear uma resposta urgente. O «sequestro» ocorre num instante, resposta emotiva (saltar a tampa), antes de o cérebro pensante ter uma percepção exacta do que está a passar-se, quanto mais decidir se é ou não uma boa ideia.
O hipocampo e a amígdala são as duas partes-chave do primitivo «cérebronariz» que deram origem ao córtex e ao neocórtex. Ainda hoje, são estas duas estruturas que fazem a maior parte do trabalho de aprendizagem e memorização do cérebro. A remoção da amígdala origina a «cegueira afectiva», sem ela a vida fica despojada de significados pessoais, do interesse nas pessoas.
A Amígdala Joseph LeDoux (Centro de Ciência Neuronal da UNY) foi o primeiro a descobrir o papel-chave da amígdala no cérebro emocional. LeDoux verificou que a amígdala pode assumir o controlo daquilo que fazemos enquanto o cérebro pensante ainda está a procurar chegar a uma decisão. O detonador neuronal - o poder das emoções sobre a vida mental é testemunhado pelos momentos acesos que mais tarde lamentamos, depois do pó assentar. Como podemos subitamente ser tão irracionais? Na arquitectura do cérebro, a amígdala funciona como uma empresa de segurança cujos funcionários estão sempre prontos a chamar de urgência os bombeiros, a polícia ou os vizinhos mal um sistema de alarme caseiro dê o sinal. Quando soa o alarme (medo, ira...) a amígdala envia mensagens para a secreção das hormonas «lutar-ou-fugir», mobiliza os centros de movimento.
A Sentinela Emocional .«Os sinais sensoriais vindos do olho e do ouvido chegam ao cérebro passando primeiro pelo tálamo e depois - através de uma única sinapse - pela amígdala; um segundo sinal emitido pelo tálamo é encaminhado para o neocórtex, o cérebro pensante. Esta ramificação permite à amígdala começar a responder primeiro que o neocórtex, o qual analisa a informação fazendo-a passar por vários circuitos cerebrais, antes de compreendê-la completamente e iniciar então a sua resposta.». Até LeDoux, a ideia era que a informação colhida pela vista era transmitida ao tálamo, seguindo daí para outras áreas de processamento sensorial do neocórtex, onde os sinais eram reconstruídos para formar os objectos tal qual os percebemos. Os sinais eram separados por significados, de modo a que o cérebro reconhecesse o que cada objecto era e o que a sua presença significava. Foram as experiências de seccionamento com ratos que levaram LeDoux a descobrir a via directa do tálamo para a amígdala. Daí que quando vemos uma coisa pela 1ª vez, em poucos milésimos de segundo e antes da sua percepção, já decidimos se gostamos dela ou não. As nossas emoções têm uma mente muito sua, capaz de formular 'pontos de vista' independentemente da nossa mente racional. O hipocampo está mais envolvido no registo e decifração dos padrões perceptuais do que nas reacções emocionais. Assim, enquanto o hipocampo recorda os factos a seco, a amígdala retém o sabor emocional que acompanha esses factos. Diz LeDoux - O hipocampo é crucial no reconhecimento de uma cara como sendo a do nosso primo. Mas é a amígdala que acrescenta que não gostamos nada dele.
Alarmes Neuronais Um dos problemas das mensagens urgentes enviadas pela amígdala é serem por vezes antiquadas, especialmente no mundo social em que vivemos. Na sua qualidade de repositório da memória emocional, a amígdala analisa a experiência comparando o que está a acontecer agora com o que aconteceu no passado. Este método de comparação é associativo: quando um elemento-chave da actual situação é semelhante a um do passado considera-o «igual». É por isso que este circuito é tão pouco refinado: age antes de ter plena consciência dos factos. A imprecisão emocional é agravada pelo facto de muitas recordações emocionalmente poderosas datarem dos primeiros anos de vida, das relações entre a criança e os que dela cuidavam (mais traumáticos); numa altura em que o hipocampo e outras estruturas do neocórtex ainda estão em formação.
Memória Na memória, a amígdala e o hipocampo trabalham de uma forma independente. Enquanto o hipocampo está numa fase de formação, a amígdala está já quase completamente formada por altura do nascimento. Daí que o papel da amígdala na infância (segundo LeDoux) reforce o pensamento psicanalítico: as interacções dos 1º anos estabelecem um conjunto de lições emocionais baseadas nas harmonias e percalços dos contactos entre a criança e os que cuidam dela. 12 milésimos de segundo é o tempo que a amígdala do rato leva a responder a uma percepção, enquanto o caminho tálamo-neocórtex-amígdala leva aproximadamente o dobro. Daí que isso possa ter na vida emocional humana consequências desastrosas para as nossas relações, por termos tomado a decisão errada, reacção de raiva ou de medo antes de sabermos o que se está a passar.
O Gestor Emocional Um dos modos de agir do córtex pré-frontal, como um gestor eficiente de emoções, é atenuar os sinais de activação transmitidos pela amígdala e outros centros límbicos pesando as reacções antes de agir. Quando as projecções nervosas da amígdala são afectadas por lesões ou doenças, a capacidade de decisão dos sujeitos fica terrivelmente diminuída, ainda que não apresentem qualquer deterioração do QI ou das capacidades cognitivas. Perdem acesso à aprendizagem emocional. Os estímulos, quer se trate do nosso gato favorito ou de um que detestamos, já não provocam atracção ou aversão. Daí que, como sublinha Damásio, o cérebro emocional está tão envolvido no raciocínio como o cérebro racional. «Na dança do sentimento e do pensamento, a faculdade emocional guia as nossas decisões momento-amomento»
Quando o Esperto é Burro A questão é: como pode alguém obviamente tão inteligente fazer uma coisa tão irracional e tão estúpida? Resposta: a inteligência académica tem muito pouco a ver com a vida emocional. Os mais inteligentes de nós podem facilmente soçobrar nos baixios das paixões desenfreadas e dos impulsos. Ao contrário do QI, com os seus 100 anos de história, a inteligência emocional é um conceito novo.
Contudo, enquanto há quem afirme que o QI não pode ser substancialmente alterado pela experiência e educação, as competências emocionais podem-no. Estudos longitudinais com ex-alunos de Harvard demonstraram que os com notas mais elevadas não eram os mais bem sucedidos, nem os mais satisfeitos com a vida (amigos, família, relações amorosas). E, no entanto, havia uma relação entre o QI e o estatuto sócioeconómico. Na vida «têm de lutar tanto como o resto de nós.» «Embora um QI elevado não seja garantia de prosperidade, prestígio ou felicidade na vida, as nossas escolas e a nossa cultura estão fixas nas capacidades académicas, ignorando a inteligência emocional, um conjunto de características - há quem lhes chame carácter - que também tem uma importância imensa para o nosso destino pessoal.
A vida emocional é um domínio que, tão seguramente como a matemática ou a leitura, pode ser tratado com maior perícia, e exige o seu próprio conjunto de competências específicas.» Há uma piada infantil que diz: «O que é que se chama a um nabo daqui a 15 anos? A resposta é: patrão». Mas mesmo entre «nabos» a inteligência emocional proporciona um trunfo importante. As pessoas que possuem competências emocionais mais bem desenvolvidas, são aquelas que se revelam mais satisfeitas e felizes com a vida.
Um novo papel para a Escola Howard Gardner, psicólogo da Harvard School of Education, afirmou «Chegou a hora de alargar a nossa noção do espectro dos talentos. A contribuição mais importante que a escola pode fazer para o desenvolvimento de uma criança, é ajudar a encaminhá-la para a área onde os seus talentos lhe sejam mais úteis, onde se sinta satisfeita e competente. É um objectivo que perdemos completamente de vista. Em vez disso, submetemos toda a gente a uma educação em que, se somos bem sucedidos, a pessoa fica preparada para ser professor universitário. E, ao longo do percurso, avaliamos toda a gente de acordo com esse estreito padrão de sucesso. Devíamos passar menos tempo a classificar as crianças e mais tempo a ajudá-las a identificar as suas competências e dons naturais, e a cultivá-los. Há centenas de maneiras de ser bem sucedido e muitas, muitas capacidades que nos ajudarão a lá chegar.»
Um novo conceito de Inteligência Gardner critica algumas das ideias instituídas: sobrevalorizar a 'maneira de pensar QI' (durante décadas muito popular nos EUA); que as pessoas assim que nascem são ou não inteligentes e, por isso, não se pode fazer grande coisa; ou que são os testes que nos dizem se somos inteligentes ou estúpidos. Em «Frames of Mind» refuta esta maneira de ver, propondo um conceito pluralista de inteligência, com 7 tipos principais: -a inteligência linguística -a inteligência lógico-matemática -a inteligência espacial -a inteligência cinestésica -a inteligência musical -a inteligência interpessoal (liderança, relacionamento, resolução de conflitos, análise social) -inteligência intrapessoal. A palavra-chave nesta visão de inteligência é de que ela é múltipla, multifacetada. Muito para além do conceito de QI. «A importância excessiva que a psicologia dá à cognição mesmo no domínio das emoções deve-se, em parte, a uma peculiaridade da história desta ciência. Em meados deste século, a psicologia académica era dominada pelos behavioristas, na linha de Skinner, os quais pensavam que só o comportamento passível de ser observado objectivamente, do exterior, podia ser cientificamente estudado. Deste modo, colocavam toda a vida interior, incluindo as emoções, fora do escopo da ciência». Nos anos 60, com a revolução cognitivista, o foco voltou-se para as maneiras como a mente regista e armazena informação e para a natureza da inteligência. Os cognitivistas deixaram-se seduzir pelo computador como modelo operativo da mente, esquecendo que a rede cerebral está mergulhada num confuso e pulsante banho de neuroquímicos, sem qualquer relação com o mundo do silicone.
Salovey redefine as inteligências interpessoais de Gardner em 5 domínios: (i) conhecer as nossas próprias emoções;
(ii) gerir as emoções;
(iii) motivarmo-nos a nós mesmos;
(iv) reconhecer as emoções dos outros - empatia;
(v) gerir relacionamentos.
QI e Inteligência Emocional Ainda não existe qualquer forma de medir com papel e lápis a inteligência emocional, e talvez nunca venha a haver, ainda que exista uma ampla investigação sobre cada um dos seus componentes. Block fez uma comparação entre pessoas com QI elevados e pessoas com QE elevados (aptidões emocionais). As dificuldades são reveladoras: (A) Homem com QI elevado puro (pondo de lado o QE) - é ambicioso e produtivo, previsível e obstinado, imune a preocupações com a sua pessoa; completamente à vontade no domínio da mente mas totalmente inepto no mundo pessoal;
(B) Homem com QE elevado - é socialmente ajustado, extrovertido e alegre, nada dados a preocupações ou ruminações; tem uma capacidade notável para se dedicar a pessoas e causas;
(C) Mulheres de elevado QI - têm confiança intelectual, são fluentes na expressão dos seus pensamentos, valorizam as questões intelectuais e têm uma vasta gama de interesses intelectuais e estéticos. Tendência para serem introspectivas, dadas à ansiedade, à ruminação e à culpa, e hesitam em exprimir abertamente a sua ira (embora o façam indirectamente);
(D) Mulheres emocionalmente inteligentes - tendem a ser extrovertidas, exprimem abertamente os seus sentimentos e estão bem consigo mesmas. Sentem-se suficientemente bem para serem brincalhonas, espontâneas e abertas às experiências sensuais, raramente sentem ansiedade.
Estes retratos são, evidentemente, extremos. Todos nós temos misturados QI e QE em diversos graus. Mas dá uma ideia das dimensões que contribuem separadamente para as capacidades da pessoa. Uma das lições a tirar da indecisão de Elliot (doente de Damásio, a quem foi removido um tumor do cérebro) é o papel crucial que o sentimento desempenha na nossa navegação na vida. Aqueles que têm uma sintonia natural com a voz do seu próprio coração - a linguagem das emoções - são mais capazes de articular as suas mensagens. Esta sintonia interior há-de torná-los mais dotados para dar voz à sabedoria do inconsciente - os significados sentidos dos nossos sonhos e fantasias, os símbolos que substanciam os nossos desejos mais profundos. Como Freud deixou claro, grande parte da nossa vida emocional é inconsciente. Os sentimentos que se agitam dentro de nós nem sempre ultrapassam o limiar da consciência (como podemos observar em alguém que teve um mau encontro e depois passa o resto do dia irritadiço e ofendendo-se por tudo e por nada).
A Paixão e o Bem-estar Uma vida sem paixão seria um triste deserto de neutralidade. Quando as emoções são demasiado abafadas, criam monotonia e distância; quando escapam ao controlo ou quando são extremas e persistentes, causam ansiedade, depressão, raiva, agitação maníaca. Controlar as emoções perturbadoras é a chave para o bem-estar emocional. A arte de nos acalmarmos a nós mesmos é uma habilidade fundamental da vida. A maioria de nós situase na gama média, com altos e baixos pouco acentuados na «montanha russa emocional». 2/3 das pessoas que sofrem de afecções maníaco-depressivas não recebem qualquer tratamento. No entanto, o lítio ou outros medicamentos mais recentes quebram o ciclo da depressão paralisante alternada com episódios maníacos que misturam uma euforia caótica e a mania das grandezas (rejeitando medicamento) com irritação e raiva.
A Raiva A ira é a mais sedutora das emoções negativas; o monólogo autojustificativo interior que a alimenta enche a mente com argumentos mais convincentes para lhes dar largas. Ao contrário da tristeza, a raiva dá energia. A ira gera ira, o cérebro emocional aquece. É então que a raiva, não temperada pela razão, se transforma facilmente em violência. As pessoas tornam-se implacáveis e impermeáveis a qualquer espécie de argumentação; os pensamentos giram à volta da vingança e de represálias, sem medir as consequências. Como refrear? deixar arrefecer! - Como? Ir dar uma volta de carro; exercício activo; relaxação muscular; controlo respiratório; distracções como tv, ler, sair para jantar fora. Conselhos de mau gosto: «Deixa de te preocupares» ou «não te rales, sê feliz».
A Aptidão Mestra - Aprendizagem Quando as emoções dominam a concentração, o que está a ser avassalado é a faculdade mental - memória de trabalho (operacional) - a capacidade de conservar na memória todas as informações pertinentes para a tarefa que se está a realizar quer se trate de teste ou de um exame. É neste sentido que a inteligência emocional é uma aptidão mestra, uma capacidade que afecta profundamente todas as outras faculdades, quer facilitando-as (motivação) quer interferindo com elas (medo). Não há talvez habilidade psicológica mais fundamental que resistir aos impulsos.
É a raiz de todo o autocontrolo emocional, uma vez que todas as emoções, pela sua própria natureza, conduzem a um impulso para agir. Esse controlo, foi analisado num estudo longitudinal com crianças da educação pré-escolar (4 anos) - teste do rebuçado agora ou 2 passado alguns instantes - os resultados revelaram que: -catorze anos mais tarde, havia grandes diferenças entre os dois grupos iniciais (os que aos 4 anos se tinham controlado e os que o não tinham conseguido; -os resistentes eram socialmente mais eficientes, afirmativos, mais capazes de fazer face às frustrações; -os não resistentes tendiam para apresentar menos desenvolvidas estas qualidades, a serem mais avessos aos contactos sociais, mais teimosos e indecisos; -no final do liceu, os resultados académicos entre os impulsivos e os que tinham controlado o impulso foram significativos (SAT); -a maneira como as crianças se comportaram neste teste de adiamento da recompensa é duas vezes mais eficaz que o QI para prever as pontuações que virão a ter nos testes SAT. Inúmeras provas sugerem que capacidades emocionais como o controlo dos impulsos podem ser aprendidos.
Pensamento Positivo Investigações de Alpert, nos anos 60, revelaram que os nervos (ansiedade, apreensão) fazem a uns estudantes ter más notas nos exames, porque lhes perturba a clareza de pensamento e a memória; enquanto a outros a pressão faz com que tenham bons resultados. a adrenalina gera uma onda de energia, de tal forma que quando estamos de bom humor recordamos mais acontecimentos positivos. Quando consideramos os prós e os contras de determinada linha de acção sentimo-nos bem. A memória influencia a maneira como avaliamos as provas numa direcção positiva, tornandonos mais propensos a fazer qualquer coisa ligeiramente aventurosa ou arriscada. Em contrapartida, o mau humor influencia a memória numa direcção negativa, tornando-nos mais susceptíveis de nos retrairmos numa decisão. A mitologia grega conta-nos a história de Pandora, uma princesa tão bela que os deuses, ciumentos da sua beleza, lhe ofereceram de presente uma caixa, recomendando-lhe que nunca a abrisse. Mas certo dia, dominada pela curiosidade e pela tentação Pandora abriu a caixa largando à solta no mundo todos os grandes males: doença, maldade, loucura. Mas um deus mais compassivo deixou-a fechar a caixa a tempo de recuperar o único antídoto que torna suportáveis as desgraças da vida: a esperança e o optimismo. Ter esperança significa ter uma forte expectativa de que tudo acabará por correr bem na vida, a despeito de contratempos e frustrações.
O optimismo é uma atitude que protege as pessoas contra a apatia, a desesperança ou a depressão (o optimismo ingénuo pode ser desastroso). Seligman (1984) verificou que as pontuações dos estudantes da Univ. de Pensilvânia em testes de optimismo revelavam-se melhores previsores das notas que viriam a obter no final do ano que as pontuações do SAT ou as notas do liceu, concluindo que: «o que falta nos testes de capacidade é a motivação».
Implicações escolares:
(i) se a exigência é demasiada, ficam ansiosas; (ii) se a exigência é demasiado baixa, aborrecem-se; (iii) o fluxo acontece nessa delicada zona entre o tédio e a ansiedade. «O prazer, a graça e a eficácia espontâneos que caracterizam o fluxo são incompatíveis com sequestros emocionais. A qualidade da atenção no estado de fluxo é descontraída, ainda que intensamente focada (...). Quando observamos alguém em estado de fluxo, ficamos com a impressão de que o difícil é fácil; o desempenho óptimo parece natural e simples.» Howard Gardner vê o fluxo e os estados positivos como parte da maneira mais saudável de ensinar as crianças, motivando-as a partir do interior e não através de ameaças ou de promessas de recompensa. «Todos temos de encontrar qualquer coisa de que gostemos e agarrarmo-nos a ela. É quando os miúdos estão aborrecidos na escola que se metem em lutas, e arranjam problemas, e quando estão assoberbados por um desafio excessivo que se tornam ansiosos a respeito do trabalho escolar. Aprendemos sempre melhor quando se trata de qualquer coisa que nos interessa e temos prazer em fazer». As escolas que fazem uma exploração pedagógica das teses de Gardner, começam por identificar o perfil de competências natural de cada criança e a destacar os pontos fortes sem deixar de tentar reforçar os mais fracos.
Empatia A chave para intuir os sentimentos dos outros reside na habilidade de ler os canais não-verbais: o tom de voz, o gesto, a expressão facial - a empatia. 90% ou mais de uma mensagem emocional é não-verbal. A ansiedade, o tom de voz, irritação, brusquidão no gesto são quase sempre captadas inconscientemente, sem que seja dada uma atenção especial a isso, mas apercebemo-lo e respondemo-lhe espontaneamente. Stern ficou fascinado pelas pequenas e constantes trocas não-verbais entre a mãe e o filho, e está convencido que as lições básicas da vida emocional começam nessa altura, num processo a que Stern chama sintonização. É muito importante a atitude da mãe no bem estar do bebé. Ansiedade gera ansiedade, ternura gera ternura, «fazer amor é, no seu melhor, um acto de empatia mútua».
Contágio Emocional Estabelecer o tom emocional de uma interacção é, num certo sentido, um sinal de domínio a um nível íntimo e profundo: significa influenciar o estado mental de outra pessoa.
Hatch e Gardner identificaram 4 capacidades como componentes da inteligência interpessoal:(i) Organizar grupos - liderar e conjugar os esforços do grupo;
(ii) Negociar soluções - o talento do mediador, evitando conflitos e resolvendo problemas;
(iii) Relacionamento pessoal - empatia, responder adequadamente aos sentimentos e preocupações dos outros;
(iv) Análise social - ser capaz de detectar e compreender os sentimentos, motivos e preocupações das pessoas. Aqueles que possuem uma boa inteligência social relacionam-se facilmente com as pessoas, lêem claramente as suas reacções e sentimentos, conduzem e organizam; resolvem as disputas que inevitavelmente surgem.
Incompetência Social Existem pessoas com uma irritante falta de graça social - parecem não saber quando terminar uma conversa ou um telefonema e continuam a falar, alheias a todas as pistas para que se despeçam; pessoas cuja conversa se centra constantemente nelas próprias, sem o mínimo de interesse por mais quem quer que seja, ignorando todas as tentativas para passar para outro assunto; pessoas intrometidas e que fazem perguntas indiscretas. Todos estes descarrilhamentos denunciam um défice na interacção - dissemia - (do grego dys- que significa dificuldade, e semes, que significa sinal) incapacidade de ler as mensagens nãoverbais. Muitas crianças revelam esta dificuldade, tendendo a tornarem-se párias sociais e a sentirem-se impotentes, deprimidas e apáticas. A aula é tanto uma ocasião social como académica, a atrapalhação e a ansiedade levam-na a responder mal.
Excelência Emocional Dois pecados capitais que quase sempre conduzem à rejeição são tentar assumir a chefia demasiado cedo e não entrar em sintonia com o contexto. Amar e trabalhar são, disse Freud a um discípulo, as duas capacidades que definem a maturidade plena. Se assim é, a maturidade pode ser uma espécie em vias de extinção: (i) elevadas taxas de divórcios;
(ii) o conflito marital reflecte duas realidades emocionais - ela procura a luta e ele retira-se dela;
(iii) as raparigas são expostas a mais informação emocional que os rapazes. Aos 10 anos, rapazes e raparigas são idênticos em agressividade e confrontação. Aos 13 anos, as raparigas tornam-se mais hábeis que os rapazes nos mexericos e vinganças indirectas, enquanto os rapazes continuam a privilegiar o confronto directo do que a fazer uso de técnicas subtis.
Raízes da Infância – Cultura Se um rapaz se magoa e começa a chorar, espera-se que se afaste e se deixe de fitas para que o jogo possa continuar. Se o mesmo acontece num jogo de raparigas, o jogo pára imediatamente e todas elas se reúnem para ajudar a que está a chorar. Estes contrastes na aprendizagem emocional revelam atitudes diferenciadas entre os sexos: as raparigas tornamse hábeis na leitura dos sinais emocionais não-verbais, na expressão e comunicação dos seus sentimentos; os rapazes aprendem a minimizar as emoções que tenham a ver com vulnerabilidade, medo, culpa ou dor. Por essa razão, as mulheres chegam ao casamento preparadas para 'gestoras emocionais', enquanto os homens não dão muito valor a esta tarefa para ajudar a relação a sobreviver. Para elas, a intimidade significa falar das coisas. Enquanto os homens procuram furtar-se a discutir o que está mal na relação.
Inundação Gottman usa a palavra inundação para designar a susceptibilidade a frequentes perturbações emocionais: os maridos ou mulheres inundados estão de tal maneira dominados pelos aspectos negativos do parceiro e pelas suas próprias respostas a essa negatividade que se deixam submergir por uma vaga de sentimentos descontrolados. Pequenas questões transformam-se em grandes batalhas. Aumento do batimento cardíaco, do bombardeamento de adrenalina para manter os níveis de excitação (raiva ou choro). O que falta nos casais que acabam por se divorciar é a existência de tentativas para fazer baixar a tensão - «não estou para aguentar isto», «não mereço...». Um dos processos terapêuticos é «espelhar». Um faz a descrição do que sente e o outro repete-o, tentando captar não só a ideia mas também os sentimentos que a acompanham.
Gerir as Emoções Uma crítica correcta põe a tónica naquilo que a pessoa fez. O ataque pessoal a uma pessoa apelidando-a de «estúpida ou incompetente» é sempre contraproducente. Harry Levinson propõe a seguinte metodologia: (i) seja específico - escolha uma ocorrência significativa, dizendo o que a pessoa fez bem, o que fez mal e como melhorar; (ii) proponha uma solução; (iii) esteja presente - as críticas e os elogios devem ser feitos cara-a-cara e em privado; (iv) seja sensível - estar sintonizado com o impacto no outro.
O Stress e a Doença Há cada vez mais indícios de que o trabalho em equipa e em cooperação ajuda as pessoas a desenvolver a inteligência emocional e a trabalhar mais eficazmente. Ader (1974) descobriu que o sistema imunológico também é capaz de aprender, daí a importância das emoções para a saúde e o bem estar. O stress e o medo reduzem a eficácia imunológica. O stress pode combater a eficácia imunológica, ao ponto de poder acelerar as metásteses do cancro, aumentar a vulnerabilidade às infecções virais e à formação de placa (o que conduz à arteriosclerose e à formação de coágulos sanguíneos capazes de provocar enfartes do miocárdio), acelerar o aparecimento de diabetes de tipo I e a evolução de diabetes tipo II e agravar ou desencadear um ataque de asma. Pode ainda provocar a ulceração gastrointestinal e de colites. Também o cérebro é afectado ao nível do hipocampo com a perda de memória, além de outras doenças infecciosas como as constipações, gripes e herpes. Estamos continuamente expostos a estes vírus, mas em condições normais o nosso sistema imunológico mantém-nos à distância. Há cada vez mais provas de que os doentes com doenças graves que estão deprimidos, também deveriam ser tratados para a depressão.
Família A vida em família é a nossa 1ª escola de aprendizagem emocional. O modo como os pais tratam os filhos tem consequências profundas e duradouras para a vida emocional da criança. São 3 os tipos de pais inaptos: (i) ignorar completamente os sentimentos da criança;
(ii) ser demasiado «deixar andar»;
(iii) não mostrar respeito por aquilo que a criança sente. Um relatório (USA) concluiu que o sucesso escolar tem mais a ver com as questões sociais e emocionais como: (i) autoconfiança; (ii) interesse, curiosidade; (iii) saber o que se espera de si; (iv) autocontrolo, saber esperar; (v) procurar ajuda junto dos professores; (vi) expressar as suas necessidades; (vii) capacidade de relacionar-se; (viii) cooperação; (ix) intencionalidade.
A quase todos os alunos com insucesso falta uma ou mais destes elementos. Castigo Verificou-se que o castigo tem mais a ver com o modo como os pais se sentem no momento do que com aquilo que os filhos fizeram. Será que os professores não agem também assim?! Um acontecimento traumatizante pode provocar na amígdala memórias «disparadoras», mais conhecidas por «Sindroma do stress pós-traumático» SPT. Essas recordações vivas continuam a intrometer-se na consciência. Uma maneira de chegar a essas recordações é através da arte, que é ela própria expressão do inconsciente. O cérebro emocional está altamente sintonizado com os significados simbólicos e com aquilo a que Freud chamava o «processo primário»: as mensagens da metáfora, do conto, do mito, das artes. A arte é uma terapia, leva a criança a expressar terrores e sentimentos que de outro modo não o faria. Projecta as suas frustrações e receios, passa a ser um meio de terapia.
Psicoterapia As provações mais vulgares da infância, como ser cronicamente ignorado ou privado de atenção e carinho por parte dos pais, o abandono, a perda ou a rejeição social podem nunca atingir a intensidade de trauma, mas deixam seguramente a sua marca no cérebro emocional, criando distorções - as lágrimas e as fúrias - nas relações que irão mais tarde ocorrer. Segundo LeDoux «A partir do momento em que o nosso sistema emocional aprende qualquer coisa, parece nunca mais a esquecer. O que a terapia faz é ensinar-nos a controlá-lo - ensina o córtex a inibir a amígdala.»
Temperamento Kagan defende que há pelos menos 4 tipos temperamentais: (i) tímido; (ii) confiante; (iii) alegre; (iv) melancólico. A investigação com gatos confirma que também há gatos tímidos e relutantes em explorar novos territórios, só atacando os ratos mais pequenos. Nos gatos verifica-se que quanto mais tímidos mais a amígdala é invulgarmente excitável. Davidson descobriu que as pessoas alegres apresentam maior actividade do lóbulo frontal esquerdo. Em contrapartida, as de personalidade mais negativa apresentam maior actividade do lóbulo frontal direito. Parece pois (estou em discordância), que a tendência para um temperamento alegre ou melancólico se manifesta no 1º ano de vida, o que sugere que é geneticamente determinada. Contudo, as lições emocionais da infância podem ter um impacto profundo no temperamento, quer ampliando quer atenuando uma disposição inata. O temperamento não é uma fatalidade. A amígdala sobreexcitada pode ser controlada através de experiências adequadas.
Infância a Janela de Oportunidades A atitude protectora parece promover a timidez, provavelmente ao privar a criança da oportunidade de aprender e de vencer. As mães protectoras são, como observou a equipa de Kagan, indirectas no modo como estabelecem os limites para os filhos quando estes fazem qualquer coisa perigosa; as outras mães estabelecem limites claros, dando ordens directas, impedindo as acções da criança, exigindo obediência.
A Poda Neuronal As crianças nascem com mais neurónios do que aqueles que o seu cérebro maduro conterá. Através de um processo conhecido como a «poda», o cérebro vai perdendo as ligações neuronais menos usadas, ao mesmo tempo que forma fortes ligações nos circuitos sinápticos mais usados. A «poda» melhora a relação sinal-ruído do cérebro, ao remover a causa do ruído. Nos gatos e macacos, esse período crítico ocorre nos primeiros 6 meses de vida, para o desenvolvimento das sinapses que transportam a informação visual. Se durante esse período fosse fechado um olho, o animal ficaria funcionalmente cego desse olho (as sinapses diminuem e do que vê multiplicam-se).
Pobres e Ricos (Estímulos) Os estudos com ratos ricos e pobres demonstram o impacto da experiência no cérebro em desenvolvimento. Os ratos ricos viviam em gaiolas bem fornecidas de divertimentos (estímulos), os ratos pobres em gaiolas iguais mas vazias de qualquer espécie de diversão. Ao longo dos meses o neocórtex dos ratos ricos desenvolveu uma rede muito mais complexa de circuitos sinápticos entre os neurónios. Em contrapartida, os circuitos neuronais dos ratos pobres eram muito mais esparsos. A diferença era tão grande que os ratos ricos tinham cérebros mais pesados e eram mais hábeis a resolver problemas. Experiências com macacos deram os mesmos resultados e o mesmo deve ocorrer com os seres humanos. No ser humano, o período crítico para os estímulos visuais ocorre nos primeiros 6 anos de vida. Enquanto cada área cerebral se desenvolve a um ritmo diferente durante a infância, o início da puberdade assinala um dos mais intensos períodos de «poda» em toda a extensão do cérebro.
Diversas áreas críticas para a vida emocional contam-se entre as que amadurecem mais lentamente.
(i) 1ª Infância - as áreas sensoriais;
(ii) Puberdade - o sistema límbico;
(iii) 16 a 18 anos - os lóbulos frontais, sede do autocontrolo emocional, da compreensão e das respostas construídas. Os hábitos de gestão emocional que são aprendidos durante a infância e adolescência ajudam a modelar estes circuitos. Isto faz da infância uma janela de oportunidades crucial para dar forma a propensões emocionais que durarão a vida inteira.
Acção dos Professores na Iliteracia Emocional «Os professores, de há muito preocupados com os maus resultados que os seus alunos obtêm em matemática e em leitura, começam agora a compreender que há uma outra e ainda mais alarmante deficiência: a iliteracia emocional». O que é traduzido no significativo crescimento do crime juvenil (USA): violações com violência, assassínios com armas de fogo; taxa de suicídio; depressão e mal-estar.
O que origina:
(i) retraimento ou problemas sociais;
(ii) ansiedade e depressão;
(iii) problemas de atenção ou concentração;
(iv) delinquência e agressividade.
Uma toxidade emocional que se está a infiltrar na infância, significando um vasto défice na área das competências emocionais. Infelizmente, trata-se de um problema mundial (cita EUA, Holanda, China, Alemanha, França, Austrália, Tailândia). Estudos longitudinais que acompanharam crianças da pré-primária até à adolescência concluíram que cerca de metade das que no primeiro ano eram indisciplinadas, incapazes de dar-se com colegas, desobedientes aos pais e resistentes aos professores se tornavam delinquentes antes de fazerem 20 anos. As crianças que ao chegarem à escola já aprenderam em casa um estilo «coercivo», são postas de parte pelos professores que têm de dedicar demasiado tempo a manter a ordem entre os seus alunos. O desafio às regras da sala de aula é tão natural nestas crianças, que o tempo para aprender é desperdiçado nestes episódios (para além da bebida e consumo de drogas). Quando têm dificuldades com alguém, colocam-se logo em posição de antagonismo. O tratamento ideal será ajudá-las a melhorar as suas relações.
Erosão da Família A família nuclear em muitos lares está desfeita. As taxas de divórcios geram uma quebra no tempo disponível dos pais para os filhos. Em cada vez mais famílias verifica-se uma indiferença crescente dos pais em relação às necessidades dos filhos. Isto não é uma causa directa de depressão, mas cria vulnerabilidade. Dos 10 aos 13 anos, 8 ou 9% dos rapazes e raparigas sofrem de depressão profunda. Com a puberdade esta taxa duplica nas raparigas.
Treino da Literacia Emocional A observação do modo como as crianças impopulares brincam mostra que são mais propensas para: (i) fazer batota; (ii) amuar; (iii) desistir quando estão a perder; (iv) gabar-se quando ganham. Depois de despistados os alunos a sessões de treino da amizade, Asher ensinou-os a «tornar as brincadeiras mais divertidas» a ser «amistosos e simpáticos». No método de Jo-An Varga, a turma é dividida em 3 grupos - puzzle de cooperação -a cada um é atribuída uma mesa. 3 Observadores familiarizados com o jogo, têm uma folha onde registam: quem assume a liderança, quem é o palhaço, quem é perturbador. O currículo de ciência da vida de Karen Stone McCown envolve:
(a) autoconsciência - dos seus sentimentos e pensamentos;
(b) tomada de decisões pessoais - examinar as próprias acções e reconhecer as suas consequências;
(c) gerir os sentimentos - lidar com as mensagens;
(d) lidar com o stress - aprender a relaxar;
(e) empatia - compreender os sentimentos dos outros;
(f) comunicações;
(g) abertura - falar com franqueza;
(h) introspecção;
(i) auto-aceitação;
(j) responsabilidade pessoal;
(k) resolução de conflitos.
Na escola elementar de Seattle, os alunos são convidados a depositarem as suas queixas e problemas na ‘caixa de correio’ da sala de aula, de modo a que todos os alunos possam debatê-los e a tentar descobrir soluções para os resolver. Isto, sem qualquer menção aos nomes dos envolvidos. Os pais também são treinados a seguirem alguns programas em casa. Na realidade, os adultos caem com demasiada facilidade na armadilha de esperar que as crianças possuam uma maturidade desproporcionada à idade, esquecendo que cada emoção tem a sua altura pré-programada para aparecer no desenvolvimento da criança.
Pré-Escola A fanfarronice de um garoto de 4 anos poderá bem merecer-lhe uma reprimenda dos pais. No entanto, a autoconsciência capaz de gerar humildade só aparece por volta dos 5 anos. Este desenvolvimento também está intimamente associado à cognição e à maturação biológica. Os anos pré-escolares assinalam a maturação das ‘emoções sociais’ - sentimentos como a insegurança ou a humildade, o ciúme ou a inveja, o orgulho ou a confiança -exigem a capacidade de nos compararmos com os outros. A criança ao entrar no mundo mais vasto da escola (pré), entra também num mundo de comparação social. Não é só a mudança que a gera, mas também a emergência de uma competência cognitiva: ser capaz de comparar-se com os outros a propósito de uma determinada qualidade, seja ela popularidade, beleza ou perícia.
Escola Primária Entre os 6 e os 10 anos, diz Hamburg, a escola é um cadinho e uma experiência marcante que influencia poderosamente a adolescência da criança, e mesmo mais adiante. O insucesso escolar desencadeia uma série de atitudes autoderrotistas que pode reduzir as perspectivas de uma vida inteira.
Básico e Secundário – Semáforo da Condução Emocional No programa de New Haven, no primeiro ano, os alunos sentam-se em círculos e fazem rodar ‘cubos dos sentimentos’ que têm inscrito em cada uma das faces palavras como «triste» «excitado». Descrevem então, à vez, uma ocasião em que tiveram aquele sentimento. Um exercício que lhes dá maior segurança na arte de ligar sentimentos a palavras e ajuda a criar empatia, quando ouvem os outros dizer que já sentiram o mesmo que eles próprios. Nesta escola há na sala de aula um semáforo colocado num ponto estratégico com 6 passos: 1º -Pára, acalma-te e pensa antes de agir. 2º -Diz qual é o problema e como te sentes. 3º - Define um objectivo positivo. 4º - Pensa em várias situações. 5º - Pensa nas consequências. 6º -Avança e tenta o melhor plano. Semáforo regularmente invocado nas brigas e amuos.
Resolver Problemas Num exercício envolvendo a turma toda, é apresentado um problema onde 2 pessoas se zangam e procura-se chegar a uma solução que contente as duas. Depois, alargar a análise dos problemas ao recreio, refeitório, aos locais onde existem disputas. Uma vez que a vida familiar já não oferece a muitas crianças um apoio firme na vida, é nas escolas que se devem buscar os correctivos para as deficiências das crianças na área das competências sociais e emocionais. «Haver ou não uma aula explicitamente dedicada à literacia emocional pode importar menos do que a maneira 'como' essas lições são ensinadas. Não há talvez outra matéria em que a qualidade do professor importe tanto, uma vez que o modo como lida com as suas turmas é em si mesmo um modelo, uma lição de facto de competência emocional ou da falta dela.
Papel dos Mediadores Diz Tim Sriver: «se os miúdos se envolvem numa discussão no refeitório são mandados a um mediador que é um colega da mesma idade e que conversa com eles até resolverem o problema, usando as técnicas que aprendeu nas aulas.» O reforço das lições emocionais, não só na sala mas também no recreio, não apenas na escola mas também em casa, torna a comunidade educativa numa teia mais unida.
Os Professores Descrentes Seria ingenuidade esperar que todos aderissem. Muitos educadores sentem que o tema é demasiado pessoal, que são coisas para serem tratadas pelos pais (argumento que cai por base quando os pais não o fazem). Há também a questão do tempo, da formação específica. As escolas que têm feito literacia emocional, registam diminuições significativas de conflitos e de suspensões e uma melhoria do desempenho académico. Os melhores modelos encontram-se fora da principal corrente educacional. Claro que nenhum programa constitui a resposta a todos os problemas. Mas considerando as crises que nós e os nossos filhos enfrentamos e considerando o quantum que estes cursos de literacia emocional representam, devemos perguntar a nós mesmos: “não deveríamos estar a ensinar estas aptidões essenciais para a vida a todas as crianças - agora mais que nunca? E se não agora quando?”
Fonte: um ficheiro PDF que tinha lá em casa no computador baseado no autor Daniel Goleman (1997)